NÃO QUEREMOS SER ESCRAVOS, QUEREMOS SER LIVRES

“DE GÉNIO E DE LOUCO” … TODOS PRECISAMOS MUITO!…

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Talvez que o melhor a fazer é não tentar ser bemcomportada custe o que custar! Uma pitada de loucura é remédio santo para a saúde mental, e a nossa saúde mental precisa dessa dose de loucura, ainda que seja uma colher de sobremesa, mas com sabor a erótico…
Nada disto será uma receita, mas sim uma orientação para fugir ao politicamente correto.
Deixemos fluir a energia vital da cura e que a intuição nos conduza a caminhos auspiciosos, custe o que custar para lá chegarmos.  Assim se vão realizando os sonhos sonhados.

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Exaustos, choremos!… se acaso nos apeteça, até mesmo chorar de tanto rir. Eu que perdi o riso, ou o esgotei, partilhando com tanto mundo que se ficou a rir de mim, encaro com humor o que outros poderiam viver como tragédia. Tudo é relativo se visto de cima e com positividade – não será que morrer de amor e paixão pode tornar a vida mais bela?!…
Estou cansada de tantas e tão más notícias. Sinto que estou a ficar um pouco tóxica. Este mundo repleto de egos mal resolvidos, de narcisismo exacerbado, de intrigas, de falsas notícias, baralha quem ainda pensa por si. Tento recorrer às boas memórias da minha já longa vida e fico consolada por essa vida que já tive. Desesperadamente, e não desistindo do que me leva a estar viva, invoco o tempo da solidariedade – quando fazíamos espetáculos, concertos, manifestações com causas bem objetivas!…

Hoje, a maior parte das vezes, ficamo-nos por um ativismo inconsequente, onde o que é preciso é fazer barulho… e esquecemo-nos de que a prosperidade e a produtividade (descontroladas) podem ser o desastre da humanidade, sobretudo quando esse excesso de riqueza é mal distribuído.

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S. Tomé dizia: “- Dai-me, Senhor, um sentido de humor apurado e a capacidade de receber o que aí vem” … se valer a pena, acrescento eu, a sorrir e a desafiar tanto as máquinas como a inteligência artificial. Entretanto, ainda seres pensantes, temos de aprender a viver o que nos cabe neste tempo, com alegria entusiasta e pura, partilhando com os outros desafios e inquietações. Porque estes tempos de incerteza e de espanto trazem no seu âmago a fecunda possibilidade de não me atormentar comigo própria. Peço emprestadas a José Saramago as palavras que escreveu no seu “Ensaio sobre a Lucidez (2004): “A vida é uma série de tentativas e erros, um processo contínuo de descobertas, e de lutas, contra as limitações que nos são impostas. Não somos perfeitos, e talvez nunca o seremos. Mas o que realmente importa é a nossa jornada, a nossa capacidade de continuar sonhando e lutando, mesmo diante das adversidades. É nesse esforço, nesse constante buscar por algo maior, que reside o verdadeiro sentido da vida.”


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Já tudo foi inventado, tudo foi escrito, pensado… mas não tanto construído! E mesmo aí, umas vezes melhor construção, outras vezes, demais, demasiada destruição. Se estivermos atentos, escutando e lendo, a inspiração brota – é o caso quando lemos, ouvimos e vemos Chaplin – o Discurso do Grande Ditador, escrito de 1940, é um texto premonitório sobre as fragilidades e as ameaças que o nosso mundo atravessa, inspirou-me a escrever algumas palavras para a abertura deste ano de 2025.
Sigo a utopia do meu coração, e tento fugir, voar, longe de pedras, penhascos, difíceis de galgar. Até porque, como não sou uma profissional de administração, sou antes uma inventora de inclusão, o meu ofício é mesmo fazer rir as pessoas que tão tristes andam pelo mundo. Não pretendo competir, gosto sim de construir, sobretudo com materiais nobres como são os seres humanos.
Tento encontrar um qualquer amor verdadeiro, mesmo que imperfeito, mas com sabor a humanidade, numa forma simples de viver a vida, cooperadamente, na esperança de que cada um traga o melhor de si, organizando um espaço suficientemente amplo para todos caberem, e ao mesmo tempo íntimo onde cada um tenha o seu lugar.
Sempre tentando dar forma arrumada, ao que logo de seguida se desarruma (…é a vida a rolar, rolar, rolar…), nós, os operários-artistas, temos de estar sempre atentos para não haver desabamentos. Essa é a arte de existir e de ir construindo a cada passo o Projecto coletivo, o Mundo, onde todos nascemos iguais e sem deslumbramentos igualmente assim morremos.

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No caminho para a liberdade, como evitar desvios, a extrema ambição, a cobiça, a ganância que destrói o sonho, instalando-se uma nuvem cinzenta de ódios que tanto tempo nos rouba à vida, e nos podem levar à guerra e à miséria de tantos? Emerge uma dicotomia que nos envergonha: tanta riqueza paira pelo mundo e, ao mesmo tempo, tanta miséria!

Temos de pensar muito sobre isto, mas teremos de ser mais atuantes – precisamos de humanidade, não de máquinas de fazer dinheiro com uma inteligência sem alma nem afeto. Precisamos de fraternidade e de tolerância.
Neste primeiro quarto de século (é muito tempo…), foram nascendo e crescendo os desafios intergeracionais – coabitamos cinco gerações tentando dialogar entre todos.
O avanço tecnológico proporciona voz a todos os seres humanos, mas não está a ser usado da melhor maneira. Quanta gente desesperada em campos de batalha, homens, mulheres, crianças, vítimas deste sistema cada vez mais incontrolável!…
O avanço tecnológico deveria ter vindo para ser útil, mas tem sido mal utilizado – o 5G generalizase e a Inteligência Artificial está a substituir o ser humano – é urgente pôr cobro, por lúcida antecipação, a toda esta catástrofe que nos espreita.

NÃO QUEREMOS SER ESCRAVOS, QUEREMOS SER LIVRES.

Os direitos humanos, esforçadamente conquistados, têm de ser reafirmados e permanentemente reescritos, incluindo os novos desafios éticos e sociais. Lutemos por um mundo de equidade económica e social, de diálogo intergeracional, onde a educação, a justiça, a saúde, a economia, o trabalho, respondam de uma forma íntegra, inteligente, aos imperativos de uma qualidade de vida longa e prazerosa para todos.

Teresa Ricou
Janeiro/Fevereiro 2025

DRUNK IN LOVE NA BIBLIOTECA LUIZA NETO JORGE

O fruto, um autómato surpreendido.
Desprendeu-se da casca, que viu?
Um autocarro, um avião, um submarino.
Os frutos frios por fora
são por dentro aquecidos a electricidade.
Os frutos davam frutos, flores, brinquedos.

Luiza Neto Jorge, O Seu a Seu Tempo 

Isabel, num fim de tarde (e serão que afastou a chuva!), todos cheios de “insolência” e gargalhadas, erguemos o passado e o presente para deles fazer uma massa nossa, um almoço que a todos nos alimenta.
Assim vimos – qual antropologia visual – excertos de “Verdes Anos”, “Se Eu Fosse Ladrão…Roubava”, ambos com realização de Paulo Rocha e “Onde Fica Esta Rua? ou Sem Antes Nem Depois”, com os realizadores presentes – João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata – e assim a Isabel nos desconcertará sempre porque se quer, ao mesmo tempo: perfeita, desfeita e refeita.
Ouvimos agora as suas canções do lugar mais íntimo, e essa coragem, essa vontade, essa capacidade de seguir e de seguir oito décadas com a responsabilidade de contar a história. São tantas as surpresas que nos conta… com Pasolini, Bertolucci, Marlon Brando (na Cinecittà) e uma vida entregue no serviço à Arte. Conversámos – olhos nos olhos – com a desafiadora estrela maior do Cinema português!
Nós prometemos agora arrumar muito bem a cozinha… e sentarmo-nos a escrever e a cantar! Mas ficou dado o recado: é saboroso ouvir, ouvir atentamente os outros. E passar tão independentemente pelo mundo com imersões em França, Reino Unido, Itália e katmandu…
Não quer ser Diva, não quer ser Mito porque os mitos não preparam cabalmente o almoço!

São as melhores armas que temos ao nosso dispor, as palavras. Perante as vicissitudes da vida, não nos preparámos devidamente? Compondo-as na nossa compreensão intermediada pelo que, inevitavelmente, de difícil há-de chegar? Não as usamos, portanto, ainda, devidamente, tantos séculos volvidos? Por orgulho (afinal, somos pouco sem elas), temor reverencial ou adiamento (como dizia alguém ontem na conversa, um dia ainda vamos escrever uma longa carta de amor).
Precisamos de nos dizer? Se apanhássemos o jeito, viveríamos melhor? Ana Zanatti, do alto de uma carreira tão respeitada e recheada – de ousadia e consistência – agora nos aparece a dizer que sim. Que se ergam e se contem à maneira das poetas. Com coragens e cobardias, castidade e volúpia, excessos, lascas de batata e sobras de pão, e todas as coisas humanas: escolham os recantos e os mares, as montanhas, as casas e os campos que vos aprouver para que as vidas se cumpram todas, no nosso mais íntimo lugar do mundo.

Parabéns, Ana: aparecer-nos sereníssima, com um livro de poemas pela mão, depois de tantos anos a resplandecer no mundo do espectáculo, face a face com a exaltação da beleza e de uma vida mais estética ou elegante que chegava a muitos mais em Portugal, chegando aos ecrãs e às mulheres, claro. Vidas próprias que se estabeleciam.
“Os teus direitos
Os meus direitos são muralhas
Para me defender dos teus direitos
Estranha forma de estarmos sós”

São desenhos de sentido, os poemas. E fizeram sempre o futuro.
Bem-vindas, poetas, ao Chapitô!

              

Fotografia: Isabel Ruth                                          Fotografia: Ana Zanatti e José Anjos

Vera Martins
Janeiro/Fevereiro 2025