EM TEMPOS DE RENOVAÇÃO

Em Maio, dedicamos o nosso tempo e saber muito especialmente às artes do circo no feminino – O Ciclo Internacional das Mulheres Palhaças!
O espaço do Circo, território aberto e inclusivo propício a fecundos e plurais encontros, onde a cultura se afirma incontornável para o desenvolvimento de uma sociedade melhor, convoca para a Tenda do Chapitô grandes artistas nesta arte de fazer rir, tão importante para a comunicação entre humanos.
O humor emergente e universal das Palhaças e dos Palhaços ocupa um lugar singular na sociedade – junta arte e cidadania.
A partir da sua comicidade espontânea, a mulher-palhaça subverte não só a comicidade, mas também estereótipos de género, constrói empatia com o público, denunciando situações sociais, fragilidades humanas e, com o seu nariz vermelho, movimenta multidões, reivindicando do Poder a resolução de problemas esquecidos socialmente.
Tropeçando nas suas acrobacias, errando performaticamente, mostra que o ser humano na sua experiência de estar vivo pode cair em erro e logo se levantar e voltar a caminhar, com os seus grandes sapatos, fazendo passo a passo uma nova e estimulante viagem.
A Palhaça, na sua versatilidade física, acrobática, malabarista, trapezista, equilibrista, está atento ao mundo que o rodeia, com atenção e perspicácia, traz consigo um potencial cénico e político – para qualquer situação (ainda que menos friendly socialmente) aplica-se nas suas atuações – a brincar se vão dizendo as verdades!…
O Palhaço vai dando luz aos mais esquecidos da sociedade, aos mais vulneráveis, onde quer que eles estejam: ruas, sem-abrigo, hospitais, prisões… transformando o riso numa resistência e valorizando a consciência social, denunciando ao mundo os desequilíbrios da sociedade.
A coragem desta profissão revela-se capaz de tocar e de emocionar o coração do público, que assim se dá conta de uma realidade esquecida, provocando até mudanças no mundo, através do que é a característica singular do ser humano – a capacidade de rir, de ter sentimentos, de sonhar e de realizar transformações.
Este Ciclo das Mulheres-Palhaças conta com a parceria da UPP – União de Palhaças em Portugal: este movimento é, além de interessante, criado e semeado lá pelos anos 70, assente na reflexão sobre o papel da mulher como Palhaça, em Parelha com outras Palhaças e em Grupo.
A Mulher, com toda a sua criatividade, reanima, recria e valoriza essa figura do palhaço no mundo, com uma energia acutilante, sustentado na sensibilidade Feminina e instituindo um território Feminino.
Estas mulheres impõem uma intervenção construtiva e transformadora da sociedade, pondo o mundo a rir de si próprias e de tudo o que nos rodeia, saindo do conforto das margens da passividade instalada e reivindicando o nosso compromisso com um outro mundo melhor.
E, entretanto, o Papa Francisco morreu! Dia 21 de Abril de 2025.
Mas fica a sua mensagem intemporal e cada vez mais urgente.

Todos – (seremos Poucos para a grande mudança).

Teresa Ricou
Maio 2025

(Excerto do editorial da Agenda Chapitô Maio/Junho 2025)

CRAZY IN LOVE, LUA E DIA, NA CANTINA CHAPITÔ

Era evidente que Octávio já não vinha. Esperara-o primeiro ressentida pela secura da sua despedida. Esperou-o depois com alguma inquietação e mesmo com alvoroço, se ouvia passos na rua ou um automóvel parara perto. Depois não esperou mais. Deitou-se, sem sono
Sentiu que estava totalmente só. Sem sentimentalismo. Só, apenas, como um facto, como se é mulher, como se está mais alta, se é casada, ou solteira, viúva, órfã. A casa velha, grande e sombria, ampliava o silêncio da noite num estalido ocasional das madeiras ressequidas. Havia ratos no telhado. Via-se pela janela uma Lua excessivamente branca e inchada, o luar banhava metade do quarto numa luz mortuária, obsessiva. No tempo das bruxas, as bruxas dançavam por baixo daquela Lua.

Helder Macedo, Partes de África

Algumas noites procurava
Na escuridão bela e amável
O que não encontrava na luz dura do dia claro.
Presságios e sentimentos e tudo o mais com que nos iludimos a pensar que sentimos.
Corremos, buscamos e não encontramos nada
na palavra predestinação.
Mas, às vezes, é com certas noites que tudo corre tranquilamente bem, como se a lua da noite só no dia do futuro realmente vivesse e vingasse. É porque o tempo – essa distância – não existe, é por isso que, às vezes, durante o dia também é noite.
Vem, Desejo de Lua, vem lutar comigo.

 

Rosa Fazenda (1985)       

Vera Martins
Maio 2025